Menor se fingiu de morto para escapar de linchamento no MA

Autor: Luis Silva

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Após perder seu colega Cledenilson Silva, amarrado a um poste e linchado, adolescente falou ao Terra sobre espancamento. O adolescente de 16 anos que escapou de ter o mesmo fim trágico de Cleidenilson Silva , de 29 anos, que foi amarrado em um poste e linchado após uma suposta tentativa de assalto em São Luís (MA) no último dia 6, contou ao Terra que se fingiu de morto para evitar ser assassinado. Arredio e com uma voz mais fina do que o habitual para uma pessoa de sua idade, ele foi à delegacia acompanhado de duas irmãs. Uma aparenta ter menos de 18 anos e a outra um pouco mais. Os pais ficaram em casa.

 Foto: Diego Torres / Terra

Cleidenilson Silva, 29 anos

Foto: Diego Torres / Terra

Ele e Cleidenilson foram agredidos por populares após a suposta tentativa de assalto a um bar no bairro São Cristóvão, na capital maranhense. Amarrado a um poste, Cleidenilson, conhecido como Chandango, foi agredido com uma garrafa quebrada até a morte. O adolescente provavelmente se salvou só porque os agressores julgaram que ele também já havia expirado.

Eu tava em casa quando o Chandango me chamou para ir num lugar. Eu perguntei o que era e ele disse que era para entregar uma arma. Eu perguntei onde era e ele me disse que eu ia saber quando chegasse lá. Ele me entregou a arma e depois ela caiu da minha mão enquanto eu entregava para ele. Um cara gritou que a gente era ladrão e outro veio com um pedaço de pau na cabeça dele (Chandango).Aí foi chegando cada vez mais gente batendo, jogando pedra…

O adolescente, que disse ter apanhado muito, apresentava no momento da entrevista um grande arranhão no lado direito do rosto e algumas escoriações menores espalhados pelo corpo.

Enquanto fala dos cortes, a irmã o interrompe e pergunta se os hematomas na perna foram causados pela garrafa. Ele, nega: ” Não, não…em mim ninguém veio com garrafa não ”. Ele disse ainda que teve medo de morrer e que se fingiu de morto.

Uma das testemunhas do crime, Thays Santos, relatou o medo que sentiu ao ver a série de agressões. “Eu vi o velho saindo do bar com a garrafa, quebrando na cabeça dele e enfiando.” Ela mora algumas casas adiante do poste que seria mais tarde comparado ao pelourinho e foi uma das pessoas que protegeram o sobrevivente.

Thays conhece o adolescente e o trata pelo nome no diminutivo. “Ele empinava papagaio (pipa) aqui. Andava com um menino que tentaram matar. A mãe mandou ele para outro estado”.

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O jovem vítima das agressões contou ainda sobre o seu desempenho escolar nos últimos anos, que não foi muito bom. “Fui expulso da escola no meio do ano passado. Inventaram uma história para a diretora e ela pensou que fui eu”. No livro de registros consultados pela reportagem com uma funcionária da unidade de ensino consta que ele foi reprovado em 2011 quando cursava a 4ª série. No ano anterior, aprovado com “muito bom” em português e matemática; “regular” em história e “bom” em ciências, geografia, religião e arte.

A conversa com o adolescente é interrompida quando uma outra irmã, que voltava de um lanche com dinheiro dado pelo delegado, vem correndo e reclama de dois carros de reportagem na porta da casa dela. Nesse momento, o entrevistado pula e vai em direção a um delegado que passava pelo corredor. “Eu não vou falar com ninguém, não vou falar com ninguém. Manda eles saírem de lá. Não vou falar mais nem contigo”, aponta para este repórter. Ele e a irmã entram no gabinete do delegado, que minimiza a euforia do adolescente. “Calma, isso é assim mesmo, daqui a pouco eles vão embora”.

Na Delegacia do Adolescente Infrator (DAI), no bairro Madre Deus, um fato que pode agravar ainda mais a barbárie cometida pelos “justiceiros”: não há nenhuma ocorrência tendo o adolescente como envolvido.

A delegada Hirana Coelho é a titular e após uma consulta ela confirma que não há outro registro policial contra ele. Há três anos trabalhando na delegacia, ela afirma conhecer bem os jovens infratores da região e garante nunca ter visto anteriormente o adolescente espancado.
A droga pode tê-lo aproximado de Cledenilson. A vizinha Thays disse que moradores da região comentavam que ele auxiliava traficantes em pequenas tarefas, na função conhecida popularmente como aviãozinho. O pai de Chandango, Antônio Silva, confirma que ele usava “chila” (maconha).

“Ele fumava a chila dele, mas se tu quer saber, ele era muito mais tranquilo depois de fumar. Ele brincava comigo e era mais carinhoso. Ele sempre era, mas depois do cigarro, aumentava”, disse Antônio Silva.

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O pai de Chandango é lanterneiro e há poucos dias teve um problema no “coração” ,segundo relatou a companheira, Maria José Gonçalves. Cledenilson era filho de outro relacionamento e muito apegado ao pai. Há alguns meses ele esteve no Piauí, para tentar se adaptar a uma nova vida na casa do avô.

Voltou e, ao chegar em casa, causou surpresa ao pai. “Eu tenho que morar é com o senhor mesmo, meu lugar é aqui”, respondeu quando perguntado sobre o que ele estava fazendo ali. No quarto, ele mostra o perfume preferido de Chandango. “Parece que eu tô é vendo ele passando aqui com esse cheiro. Ele faltava acabar com o vidro”, comenta com um rápido riso.

Cledenilson tinha 29 anos, fazia trabalhos como soldador e havia recém descoberto que seria pai. Os exames feitos pela namorada foram pagos por ele. Antônio fala que o filho estava feliz, dizia que queria tirar um diploma para arrumar um trabalho, cuidar da família e ajudar o pai.

O carinho ao lembrar de como o filho separava algumas frutas numa bacia e sentava na porta de casa denuncia. “Quando eu procurava as coisas e via que ele tava distribuindo, perguntava se ele não tinha mais o que fazer”. A resposta era sempre a mesma. “O que é que tem, deixa o povo”.

O pai de Cledenilson diz não guardar rancor de ninguém que possa ter participado das agressões. O desejo, segundo ele, é de que tenham vida longa e que mudem a perspectiva que têm do mundo.

A mãe de Cledenilson o entregou ao pai quando ele ainda tinha um ano e meio. Com a primeira madrasta morou dois anos e com a atual esposa do pai mantinha um relacionamento como de mãe e filho. Sem dormir bem desde o dia do crime, Maria José diz que tenta entender a cabeça de uma pessoa que participa de um linchamento. “Eu queria saber como eles estão se sentindo hoje”.

Ela ressalta que acredita na inocência do enteado e sustenta que ele não mentia para ela.

Maria é cozinheira em Arari, cidade distante cerca de 170 quilômetros de São Luís. Ela vem à capital de 15 em 15 dias. Apenas num momento ela admite a possibilidade de seu filho estar errado. “Não tinha precisão (necessidade) dele fazer isso. Se fez, foi a primeira vez.”

Até então, a única confusão na qual ele tinha se metido havia sido em 2012, quando teve o pescoço cortado depois de uma discussão num bar. O agressor era um conhecido do bairro com quem, inclusive, já havia estado em outros momentos. “Ele não falava em vingança. Dizia que Deus era quem sabia o melhor dele e que não ia ser ele a fazer alguma coisa contra alguém.”

A rua onde morava com os pais e mais um irmão está longe de figurar entre as piores no que diz respeito a infraestrutura. Na frente de três casas, um grupo de crianças jogam futebol. Dona Raimunda Sanches diz que ainda não acredita na morte do vizinho de frente. “Parece que eu tô é vendo ele ali, sentado, provocando os outros meninos. Ele não merecia isso”, finaliza.

Polícia tem duas hipóteses para linchamento e suspeitos devem ser indiciados
O delegado Cláudio Santos Barros informou que, até o momento, as investigações ainda estão começando. Duas dezenas de testemunhas já foram ouvidas, desse total, 12 tem alguma informação relevante. “Muitos dizem que tinha muita gente e não sabe identificar quem participou”.

Duas versões foram apresentadas: Na primeira, confirmada pelo menor em entrevista, Cledenilson chamou o adolescente para entregar uma arma e, ao passar o revólver, deixou cair no chão. Populares olharam e iniciaram a confusão.

Já na segunda, apresentada por alguns moradores que preferem não se identificar, os dois entraram no bar, exigiram o dinheiro ao dono do bar e, numa discussão, o adolescente teria mandado Cledenilson atirar. Ele teria disparado duas vezes, mas a arma falhou. O dono do bar reagiu e com a ajuda de outros moradores, começou o espancamento.

Imagens compartilhadas via WhatsApp são analisadas pela polícia. Nelas, dois homens são vistos agredindo Cledenilson. A polícia não revela os nomes, mas estes devem ser indiciados.

Fonte: Terra






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