José de Freitas/PI,  18 de janeiro de 2021
 
7 de janeiro de 2021 Informações da Postagem: Por Luís Silva Imprimir Postagem

Lazer e ócio em Lagoa Alegre

Quando nos referimos a Grécia antiga, sempre nos reportamos a associações com tempos distantes, desconhecidos e para muitos cidadãos, pouco atraente. Mas foi lá na antiguidade grega que o termo “ócio” (otium) foi utilizado para denominar o tempo livre ou o estado em que não fosse necessário trabalhar, à época dedicado às ocupações intelectuais.

Para nós, o lazer, ou ócio, é entendido como uma categoria social, onde o sujeito vivencia a cultura, ou seja, lazer é cultura na medida em que se vive a mesma.

Segundo Rosário Vieira, o lazer foi, durante a história, interpretado de muitas formas. Na Idade Média o tempo livre era direcionado à atividade religiosa, à ocupação com o divino. No Renascimento, essa percepção muda, e o trabalho passa a ser mais valorizado que o lazer, pois o trabalho, de acordo com a ideologia que passa a vigorar, enobrece o homem. Na Idade Moderna, a valorização do trabalho ganha grandes proporções, de forma que o lazer passa a ser suprimido e em alguns casos quase inexistindo.

Apesar de vivermos tempos de pouco lazer e muito trabalho, o ócio é necessário à condição humana, como que feitos um para o outro. É algo que transcende a cultura, a saúde e mesmo o tempo. Sendo assim, hoje trago as formas de lazer que vigoraram ontem e hoje no pequeno município de Lagoa Alegre.

Piqueniques – Os piqueniques consistiam na reunião de grupos de jovens, nas quais as mulheres ficavam responsáveis por fazer a comida, enquanto os homens levavam o arroz, a carne ou então iam caçar. Aconteciam em diversos lugares, mas os mais frequentados eram: as proximidades da lagoa, os criolizais, os Farias e os pés de manga da propriedade do senhor Raimundo Arlindo. Algumas vezes as meninas levavam a comida e os meninos a radiola com os carregos de pilha, em outras levavam redes.

Banhos – Os banhos aconteciam tanto na lagoa como no Angico e Riachão. Os banhos na lagoa eram mais frequentes e aconteciam com certas divisões de gênero e idade. As mulheres costumavam banhar na “lagoa das mulheres”, enquanto os homens banhavam no chamado “açude dos homens”. Na lagoa existiam espaços distintos, alguns deles são: Barreiro da dona Belinha; Rodeiro; lagoa da Dona Raimunda Elias; o cacimbão; a lagoa da Dona Moreninha. O período de maior fluxo era na semana santa e nas férias do mês de Julho e de Dezembro. Com o tempo, os banhos na lagoa se tornaram uma atividade absoluta, sendo preteridas.

 Jovem banha na lagoa das mulheres, na década de 80. 
(Foto: Arquivo L.A Memórias)

Brincadeiras – Também existiam diversas brincadeiras que ocorriam nos mais diversos cantos do povoado, como no terreno de Raimundo Farias e o campo de futebol que ficava onde hoje se localiza a praça central do município, em frente à casa do senhor Chico Quidô. As crianças brincavam sob a supervisão dos pais. Eram as brincadeiras do anel, pega-pega; bombaquim, casinha, bonecas, carrinho feito de lata de sardinha, pera, uva, maçã ou salada mista, caiu no poço e boa noite, onde os meninos e meninas aproveitavam para beijarem-se, era essa uma das formas de namoro da época. À época não havia energia elétrica, apenas um motor que gerava energia até as nove horas da noite. Próximo desse horário, ele dava um sinal, e mais um, e quem estivesse na rua tratava de ir para casa, pois após isso a luz se apagava, restando apenas a escuridão e alguns bêbados na calçada da capela de Santa Luzia.

Festas Dançantes – As maiores festas costumavam acontecer no clube de Antônio Cearense, de José de Freitas, próximo ao local onde hoje fica a garagem da J. Araújo. O clube era grande, coberto de palha e o chão batido de barro. Era iluminado com lampião ou lamparinas de quatro bicos espalhadas pelo salão. Os tocadores eram Antônio Lino, Manoel Ana e Oscar Lotéro.

Outras festas que garantiam o lazer lagoalegrense eram os matinês, pequenas festas improvisadas na casa de alguém, algumas vezes animadas ao som de radiola a pilha outras vezes ao som de tocadores, aconteciam a tarde ou a noite. Segundo Djalma Costa:

“Quando iam para a festa, tinha uma mulher responsável para levar de 10 a 15 moças, uma senhora dona de barraca, a moça que a desrespeitasse na outra festa não ia mais (…)

O Carnaval – Na década de 70 e 80, na ausência de blocos, o carnaval acontecia no povoado de forma improvisada. As fantasias eram feitas pelos próprios foliões, cortando pernas de calças, pintando parte da cara, entre outras formas bem caseiras de diversão.

Festas Religiosas – As festas religiosas em homenagem à padroeira da cidade Santa Luzia e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro também eram uma forma de lazer. À década de 60, a capela não existia e foi-se construindo aos poucos a partir do trabalho de Maria de Jesus e muitos outros que saíam pelos interiores pedindo jóias ou animais para leiloar em prol da igreja. As missas até então eram ministradas por padres de União que vinham ao povoado Lagoa Alegre duas vezes ao ano. Todo aquele clima de coisas novas no povoado também se constituía como uma forma de lazer e ócio.

Até hoje, os festejos de Lagoa Alegre são muito aguardados pelos moradores do município e regiões vizinhas, como um dos momentos de agitação social.

Passeata de fiéis nos festejos de Lagoa Alegre.
(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Reisado – O Reisado é uma manifestação cultural católica que se caracteriza por celebrar a adoração dos Magos ao nascimento de Jesus Cristo. O ritual do reisado consiste na peregrinação de um grupo de fantasiados representando a burrinha, o boi, a ema e os caretas, travestidos com máscaras e vestimentas feitas de palha de carnaúba. Os instrumentos utilizados na festa folclórica são, geralmente, a sanfona, o pandeiro e a rabeca, um tipo de violino rústico. Em Lagoa Alegre o grupo de Chico Trança pode ser considerado o mais tradicional grupo de reisados, com sede na Terra Preta e influencia em toda a região circunvizinha.

Grupo de reisado no Centro Alternativo, de seu Prudente. 

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Futebol/Futsal – o futebol enquanto esporte mais popular do mundo consegue alcançar gerações à fora, persistindo na história do ócio e do lazer. Em Lagoa Alegre, não se tem notícias de quando o esporte passou a ser praticado, mas desde a década de 60 já era uma realidade no povoado. O campo de maior destaque era o que se localizava onde hoje fica o centro do município, sendo ele de piçarra, próximo a um pé de jatobá e das casas de Adalto Barros e de seu Jacinto. Dessa forma, ainda como lazer, o futebol chega primeiro que o futsal, que só passa a ser uma realidade em Lagoa Alegre quando da construção de uma quadra na praça central. A quadra foi palco onde muitas infâncias se desenrolaram.

Jovens se divertem em campo de futebol, na década de 70.

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Mais adiante, com a construção do atual ginásio poliesportivo Pedro Tóte, a prática do futsal se voltou para lá. Durante muito tempo, o espaço foi dominado pelos homens, como forma de divertimento costumavam se encontrar a tarde e jogar partidas apostando refrigerantes, dinheiro em espécie ou outras coisas. Atualmente, o espaço é usufruído em peso pelo time de futsal feminino de Lagoa Alegre que conquistou espaço e importância na modalidade, moldando a percepção dos cidadãos a respeito da condição feminina no futebol/futsal.

Seleção feminina de Lagoa Alegre.

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Time representa o município em diversas competições.

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Ciclismo – Atualmente, a forma mais em voga de lazer é o ciclismo que vem ganhando adeptos já há algum tempo. Diversos jovens e adultos aderiram a prática do cicloturismo, alcançando cidades vizinhas e seus pontos turísticos. Os ciclistas costumam andar em grupos, alguns mais profissionalizados utilizando vestimentas adequadas à atividade, e saem em horários diversos: alguns pela manhã, outros no fim da tarde.

 Ciclistas pousam para foto em Lagoa Alegre.

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

Pessoas de diferentes idades praticam ciclismo

(Foto: Lagoa Alegre Memórias)

O lazer e o ócio em Lagoa alegre, enfim, podem ser entendidos como formas de compreender os processos históricos, culturais e emocionais do município e seus habitantes, pois proporcionam a interação humana de forma sadia e voltada unicamente para o bem-estar e a felicidade contínua.

Esta matéria foi baseada no trabalho sobre lazer em Lagoa Alegre na década de 70 e 80 da profª Rosário Vieira.

Thiago Inácio é estudante de Antropologia pela Universidade de Brasília e editor da página Lagoa Alegre Memórias no Facebook


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