José de Freitas/PI,  21 de outubro de 2019
 
12 de setembro de 2019 Informações da Postagem: Por Luís Silva Imprimir Postagem

Remadas para o futuro: prática da canoagem resgata e revela talentos em José de Freitas

Criada a partir da ideia do promotor de Justiça, Flávio Teixeira de Abreu Júnior, para que jovens em conflito com a lei praticassem um esporte capaz de afastá-los de caminhos perigosos e voltassem a estudar, a Associação Escola de Canoagem Iporanga, na Barragem do Bezerro, foi mais além. Conquistou adolescentes e crianças que sequer entraram em conflito com a lei e agora querem competir em torneios pelo Brasil, como atletas. 

A prática desportiva está criando uma cultura que se espalha por outras cidades, transformando as barragens e açudes do Piauí em espaços para o aprendizado, treino e competições do esporte.

O promotor de Justiça de José de Freitas (44 km de Teresina) disse que ver a Barragem do Bezerro, de 11 milhões de metros cúbicos, praticamente sem nenhuma utilização do ponto de vista esportivo, motivou a criação da Escola. “A gente juntou isso com a questão da drogadição em José de Freitas”, explicou, ao ressaltar a vocação turística e esportiva pouco exploradas. 

“Quando nós chegamos em José de Freitas, percebemos que a Barragem do Bezerro tem um potencial turístico impressionante, mas não tinha nenhuma ligação com os esportes. O que a gente vê são as pessoas que andam de jet-sky e andam de barco para pescar”, acrescentou.

O desempenho do medalhista Isaquias Queiroz, o primeiro atleta brasileiro a conquistar três medalhas olímpicas em uma Olimpíada (no Rio, em 2016, sendo duas de prata e uma de bronze) foi outra inspiração para o projeto. Nos Jogos Pan-Americanos de 2015, Isaquias conquistou dois ouros e uma prata; em agosto de 2018, tornou-se Tricampeão da prova C1 500 metros, ao vencer em Portugal e conquistar sua oitava medalha em mundiais. Ele é considerado o maior nome da história da canoagem brasileira. 

“Ao ver o desempenho de Isaquias Queiroz na Olimpíada, vi que era um esporte difícil, mas achei que a gente tem potencial não só em José de Freitas”, explicou Flávio Teixeira.

A Escola de Canoagem foi criada no ano passado e o primeiro treinador de Isaquias Queiroz visitou o município, quando ofereceu, gratuitamente, um curso para os futuros professores de canoagem.

O piauiense Luis Carlos Cardoso ministrou a aula inaugural da Escola de Canoagem de José de Freitas. Ele era dançarino na banda do cantor e compositor Frank Aguiar, mas ficou paraplégico, entrou na canoagem usando um caiaque para melhorar a musculatura. Atualmente, Luís Carlos Cardoso é pentacampeão mundial de canoagem. Ele foi para José de Freitas com passagens pagas pela Federação Brasileira de Canoagem.

“Luís Carlos Cardoso ficou maravilhado. Ele disse que não sabia que existia em José de Freitas uma escola de canoagem”, lembra Flávio Teixeira.

Escola está em busca de mais alunos

O empresário Alexandre da Rocha diz que a Escola de Canoagem de José de Freitas, a cada dia, conquista mais crianças e adolescentes. “Uns incentivam os outros para a prática de canoagem”, disse. 

O instrutor da Escola de Canoagem de José de Freitas Iporanga, Rubens de Moura, de 28 anos, disse que a escola foi inaugurada no dia 14 de novembro de 2018, com o objetivo ressocializar e retirar as crianças e os adolescentes das drogas, do mundo perverso. Mas está aberta a receber quem quiser aprender o esporte.

Instrutor Rubens | Crédito: Efrém Ribeiro

“Nós estamos em busca de mais alunos. Começamos com dez alunos, tivemos uma baixa, ficamos com três,    quatro e agora estamos voltando a ter mais alunos. Os alunos que ficaram, três crianças e dois adolescentes,    são bem focados. As crianças gostam mais da diversão, do contato com a água. Os adolescentes estão na escola por causa do amor ao esporte”, falou Rubens de Moura, que para sua aprendizagem, passou um mês com Figueroa, que treinou a Seleção Brasileira de Canoagem, na Bahia.

Maria Eduarda Ferreira Alexandre, de 11 anos, acha muito divertido a canoagem, tanto no aprendizado como na prática.

Maria Eduarda é uma das alunas da escola | Crédito: Efrém Ribeiro

“A gente aprende muitas coisas. Aprendemos o ataque, a travada, o descanso e como se mover dentro da canoa”, falou Maria Eduarda, falando de técnicas de remo e se equilibrar no caiaque.

Dono de um restaurante na Barragem do Bezerro, Alexandre da Rocha falou que a Escola de Canoagem torna o balneário uma atração turística por causa da beleza do esporte e as cores fortes dos caiaques.

“Os turistas chegam e perguntam: ‘Para que servem essas canoas? É para passeio?’ Eu explico que são da Escolinha de Canoagem que tem em José de Freitas, com aulas de segunda-feira a sexta-feira”, disse. 

Sonho é transformar Piauí no maior polo do Brasil

O promotor de Justiça, Flávio Teixeira, disse que a prática da canoagem na Barragem do Bezerro pode ser início da transformação do Piauí em um polo do esporte no Brasil, por conta das muitas barragens espalhadas em todo o Estado.

Crédito: Efrém Ribeiro

“O Piauí, com todas essas barragens que possui, pode ser um polo de canoagem extraordinário”, projeta Flávio Teixeira, acrescentando que entrou em contato com o município de Campo Maior para organizar torneios de canoagem. 

A Escola tem um patrocinador anônimo que paga o professor de Canoagem e o Governo do Estado prometeu doar duas barracas de lona para armar a sede da escola na própria Barragem do Bezerro. Ele também disse que atletas de Santa Catarina e a Federação Gaúcha de Canoagem doaram cinco canoas para a Escola de José de Freitas. 

O esporte está sendo divulgado nas escolas de José de Freitas e, neste semestre, o promotor 

Flávio Teixeira está viabilizando um ônibus com a Prefeitura Municipal para o transporte das crianças e dos adolescentes de suas escolas para a Barragem do Bezerro, para a prática da canoagem.

“Temos poucas verbas. Podemos pagar apenas um instrutor, que trabalha no turno da tarde, em um horário reduzido”, declarou Flávio Teixeira, que imagina torneios de canoagem sendo disputados em Campo Maior, Bocaina, Picos, Piripiri, Piracuruca e Água Branca, o que pode transformar o Piauí no maior polo de canoagem do Brasil. 

Alunos querem ser atletas profissionais

Crédito: Efrém Ribeiro

A Escola de Canoagem de José de Freitas possui dez alunos, alguns deles enfrentaram problemas com drogas, mas os outros não. Três treinam diariamente. 

Ana Clara dos Santos Fernandes, de 18 anos, é uma das alunas da Escola. Estudante do primeiro ano do Ensino Médio, ela disse que depois de ter praticado um ato infracional e andar com más companhias, fez um acordo com o promotor de Justiça de José de Freitas, Flávio Teixeira, para treinar na Escola de Canoagem.

“Acho muito legal a canoagem. Foi uma forma que eu vi de passar o tempo, de relaxar”, falou. Ana Clara quer ser atleta profissional de canoagem.

“Eu quero ser atleta, trabalhar com canoagem futuramente. Eu descobri a Escola de Canoagem porque aconteceu comigo uma situação muito constrangedora. Por isso, o promotor de Justiça proporcionou isso, esse esporte, para mim. Eu fechei o acordo e estou gostando muito. Participo sempre, assim que eu posso vir”, falou Ana Clara, que há quase um ano pratica o esporte na Barragem do Bezerro.

Ana Clara diz que a prática da canoagem provoca paz e tranquilidade, além de ficar relaxada. Ela diz que também gosta para manter o corpo em forma. “É bom até para a saúde”, acrescentou.

Crédito: Efrém Ribeiro

Matheus Eduardo Lamartins, 18 anos, está praticando canoagem há oito meses na Escola de Canoagem.

“Eu comecei a treinar convencido por minha tia, que indicou o projeto. A canoagem me conquistou de cara, logo na primeira aula tive bom desempenho e peguei o gosto pelo esporte”, falou Matheus Eduardo.

Ele garante que aprendeu com a canoagem equilíbrio, paciência e força de vontade.

“Quando eu remo, sinto muita adrenalina. Para mim é uma diversão. Fiquei mais musculoso com a prática do esporte, que exige muito esforço”, diagnostica Matheus Eduardo, que tem 1,91 metro de altura.

Crédito: Efrém Ribeiro

Ele trabalha em uma hamburgueria e treina de duas horas a duas horas e meia por dia na Barragem do Bezerro. “Eu pretendo participar de torneios de canoagem nacionais”, falou Matheus Eduardo. 

Rubens de Moura afirma que os jovens querem atuar profissionalmente com a canoagem, mas considera que o esporte exige muita dedicação. 

“Eu acho que tudo depende do próprio atleta para ter uma carreira nacional e internacional. Se ele realmente quer, vai ter de abrir mão de muitas coisas, vai ter que abdicar de diversão e de certos lazeres. Terá que se focar no esporte”, falou Rubens de Moura.

Efrém Ribeiro/MN


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